A Era das Escolas de Samba e Seus Primeiros Desfiles
O carnaval de Boa Vista, uma capital situada na região norte do Brasil, já viveu momentos fascinantes que hoje parecem parte de um conto quase mítico. Décadas atrás, o brilho dos desfiles de escolas de samba e a grandiosidade dos carros alegóricos eram uma realidade vibrante. Numa época em que a cultura do samba começava a se consolidar em diversas regiões do Brasil, Boa Vista não ficou para trás, e as festividades carnavalescas ganhavam destaque com a presença de emblemáticas agremiações locais.
A Influência de Jorge Aragão na Tradição de Roraima
Entre os principais personagens dessa história está o músico manauara Jorge Aragão, um dos grandes nomes do samba, que se destacou como um dos pioneiros a introduzir essa tradição em Roraima. Desde a sua chegada em 1973, Jorge sentiu a necessidade de impulsionar o carnaval local, trazendo consigo a chama da cultura do samba que vivenciou em Manaus. Ele recorda que, nesse tempo, o carnaval de Boa Vista era bastante discreto, mas cheio de potencial. Para Jorge, a transformação começou quando conheceu as escolas Corte Momo e Aparecida, que já eram populares entre os moradores.
Corte Momo e Aparecida: Ícones do Carnaval Local
As escolas de samba Corte Momo e Aparecida eram as mais reconhecidas na época, e através de suas alegorias e ritmos contagiantes, elas despertaram a paixão pela folia no coração dos roraimenses. Jorge observa que a comunhão entre os foliões era marcante, pois todos se conheciam na pequena cidade que estava em expansão. O carnaval, apesar de sua simplicidade, era vibrante e capaz de unir as pessoas em torno das tradições.

O Carnaval de Rua e Seus Personagens
Com uma atmosfera conhecida pela alegria e costumes próprios, o carnaval de Boa Vista destacou-se por suas características únicas, que incluíam o encantamento das fantasias e a presença marcante de personagens folclóricos. As pessoas saíam às ruas usando fantasias feitas à mão, muitas vezes criadas por suas próprias famílias, e a empolgação tomava conta da cidade. Esse ambiente festivo não apenas celebrava as tradições culturais, mas também refletia a identidade dos roraimenses.
Desfiles Cancelados e Desafios nas Agremiações
Entretanto, nem tudo eram flores. Os desafios estavam à espreita quando incêndios e falta de recursos quase aniquilaram a alegria das escolas de samba. Um caloroso relato de Jorge remete a um evento em que um incêndio comprometeu as fantasias da escola Aparecida, levando ao cancelamento dos desfiles. As dificuldades de financiamento e a escassez de apoio governamental criaram um cenário desafiador para as agremiações, que lutavam para sobreviver.
O Papel dos Militares na Cultura do Samba
Naquela época, muitos integrantes das forças armadas estavam em Boa Vista, contribuindo para a construção de uma estrada que conectaria a cidade a Manaus. Com isso, uma nova dinâmica social começou a surgir, trazendo muitos cariocas que apreciavam o samba e se integraram aos blocos locais. Essa fusão de diferentes culturas resultou em um compartilhamento rico de tradições e uma intensa troca cultural, fundamental para o avanço do samba em Roraima.
A Criação da Escola de Samba El Dourado
Em meio aos desafios, Jorge e seus amigos, como Melo e Ventura, decidiram resistir e reerguer a festa. Na casa da família Canuto, foi concebida a escola de samba El Dourado, que se tornaria um símbolo da resiliência e da recuperação do carnaval. A El Dourado marcou o início de uma era de crescimento e expansão, incentivando o surgimento de outras instituições carnavalescas, como Aquarela e Império Roraimense. Essas novas agremiações tinham a missão de homenagear personagens históricos e figuras folclóricas da região, refletindo a riqueza cultural da localidade.
O Legado da Praça da Bandeira no Carnaval
Em 1994, Jorge Aragão não só participou como colaborou na fundação de outra escola, a Praça da Bandeira, em homenagem ao famoso espaço no centro da cidade. Essa escola também se destacou por seus desempenhos, conquistando vários prêmios ao longo dos anos. A Praça da Bandeira, assim como outras escolas, tornou-se um marco significativo, representando a contribuição da comunidade na manutenção do carnaval vivo e pulsante.
O Último Desfile: Reflexões sobre a Tradição
A década de 2010 trouxe mudanças drásticas, levando ao último desfile de escolas de samba em 2012. Com isso, o cenário do carnaval se transformou, e os blocos de rua tornaram-se o foco principal da festa na cidade. Jorge reflete sobre o fim de um ciclo, sentindo a nostálgico apelo de um tempo que não volta mais, mas que mantém vivas as memórias e sentimentos das pessoas que participaram dessa rica história.
Memórias Vivas: O Sentimento do Carnaval em Boa Vista
Após mais de uma década sem desfiles, o sentimento de saudade permanece intenso entre aqueles que vivenciaram a folia. Mesmo que as escolas de samba não desfilam mais, seus legados perduram na memória coletiva. Jorge compartilha que o coração ainda vibra com a energia e a força da comunidade que se uniu em torno do samba, um sentimento que permanece gravado e que simboliza o compromisso e a paixão pelo carnaval de Boa Vista. Para ele, a experiência e a alegria de ter contribuído para a construção dessa história são inestimáveis, e seu amor pelo carnaval continua a brilhar em cada canto de Roraima, mantendo a tradição viva dentro de seus corações.


